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A Psicologia Sócio-Histórica na Clínica



A Psicologia Sócio-Histórica na Clínica: Uma Conceção Atual em Psicoterapia

Autora: Maria Helena Soares Souza Marques Dias, Mestre em Psicologia Social e da Personalidade; Coordenadora do Instituto de Psicologia Aplicada e Formação, São Paulo, Brasil.


A Psicologia Sócio-Histórica na Clínica trabalha com o Modelo Relacional-Dialógico. O processo dinâmico-relacional procura “fazer sentido da experiência no aqui e no agora no contacto com o cliente” (Leal, 1999). Assim, a psicoterapia como espaço contingente promove o desenvolvimento socio-emocional e psicológico do cliente. O “Eu define-se pelo outro na medida em que este completa a sua intenção”, (Leal, 1997).

A psicoterapia é uma forma recorrente de interação social (relação social) e o seu espaço de ocorrência é o espaço psicológico, lugar da realidade de cada um. A abordagem da Psicoterapia Sócio-Histórica no Modelo Relacional-Dialógico tem demonstrado grande êxito nos resultados obtidos no tratamento dos mais variados transtornos e patologias clínicas e, na visão de Romanini (2003), a eficácia deste novo paradigma está baseada no sucesso do estabelecimento de um vínculo terapêutico, na qual a cooperação se alia a recursos técnicos e científicos, e às habilidades pessoais do terapeuta.

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Esta abordagem tem como fundamento básico a compreensão dos processos psicológicos e da sua rede de significados, dentro de uma visão dialética, estabelecida através da perceção, seleção e significação das informações provenientes do meio interno e externo. O Modelo Relacional-Dialógico, da autoria de Maria Rita Mendes Leal, apresenta uma proposta de desenvolvimento para a compreensão do “EU”, estabelecendo uma ligação entre os passos de desenvolvimento e as estruturas de personalidade (Leal, 1999; Rio, 2001).

O processo dinâmico relacional neste modelo está centrado nas emoções e nos seus significados, incidindo sobre o intercurso relacional e focando o modelo espontâneo de regulação da vida emocional, presente no início de vida da relação mãe-bebé que assegura a primeira estruturação da mente, o “EU” (Rio, 2001).

A Psicologia Sócio-Histórica parte da conceção marxista de Homem e de Mundo e foi estudada por Vygotsky e seus companheiros, Luria e Leontiev, procurando redefinir o método de compreensão do fenómeno humano a ser pesquisado pela Psicologia (Tanamachi, 1997).

Essas preocupações levaram-nos a pesquisar as formas superiores de comportamento – as Funções Nervosas Superiores, tais como a Linguagem, a Memória, a Atenção, o Pensamento, e a entendê-las a partir das relações sociais que o indivíduo estabelece com o mundo (Oliveira, 1995).

Vygotsky procurou compreender os fenómenos psicológicos enquanto “mediações entre a história social e a vida concreta dos indivíduos” (Meira, 2000). Essas mediações ocorrem através da atividade prática humana, pois ao produzir as suas formas de subsistência, o Homem autoproduz-se. Os produtos da atividade humana são sempre coletivos na medida em que só adquirem significado a partir da vivência, mediada pela linguagem.

Vygotsky estudou a Linguagem enquanto Função Nervosa Superior que é primeiramente social, resultado da relação entre as pessoas (crianças e os outros) para depois ser interiorizada como resultado da ação do próprio indivíduo, transformando-se em instrumento regulador do comportamento (Vygotsky, 1998).

Zona de Desenvolvimento Proximal


Entendendo o desenvolvimento enquanto um processo dinâmico, Vygotsky refere que existe o nível de desenvolvimento real ou efetivo e a zona de desenvolvimento proximal (ZDP) correspondente àquelas atividades que o sujeito ainda não consegue realizar sozinho, mas consegue com a ajuda de uma outra pessoa significativa, neste caso representada pela figura do psicoterapeuta.

Este mediador – o psicoterapeuta – ajuda o cliente a produzir o aparecimento de novas maneiras de pensar e, da mesma forma, propicia a este o desencadear de processos de modificação de esquemas de conhecimentos, construindo-se assim novos saberes.

Intervir em zonas de desenvolvimento proximal significa “ministrar a cura conforme a evolução da doença” (Antunes, 2002). A atuação na ZDP mostra-se bem eficiente quando descobrimos meios de ajudar o indivíduo a recontextualizar e reconstruir a aprendizagem, reorganizando as suas experiências e os seus conhecimentos através de novos significados.

Desta forma, a ZDP é descrita como um espaço gerado na própria interação entre psicoterapeuta e cliente. A Psicoterapia Sócio-Histórica utiliza o conceito de ZDP por acreditar que esta diz respeito a funções emergentes no sujeito, capacidades que ainda necessitam de ser manifestadas com apoio de recursos auxiliares oferecidos pelo outro (psicoterapeuta) no processo terapêutico.

Davis, Silva e Espósito (1989) afirmam que “a interação com o outro – um adulto ou uma criança experiente – adquire assim um carácter estruturante na construção do conhecimento, na medida em que oferece desafio e apoio para a atividade cognitiva. A interação social atua dessa forma, fazendo com que processos maturacionais em funcionamento se venham a completar, fornecendo novas bases para novas aprendizagens.”

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Percebe-se que a troca de experiências vai sendo criada a partir da reflexão e da construção EU/OUTRO, fator fundamental para o desenvolvimento pessoal e social dos indivíduos envolvidos. O psicólogo poderá intervir na génese das funções psicológicas superiores, uma vez que a Zona de Desenvolvimento Proximal é a região dinâmica que possibilita o processo de internalização (transição entre interpsicológico – eu/outro – para intrapsicológico – eu).

A relação psicoterapêutica favorece a tomada de consciência acerca das decisões, na medida em que o partilhar de ideias durante as sessões de psicoterapia e a interação entre a díade psicoterapeuta/cliente contribui para a eficácia do processo de psicoterapia. A internalização na visão de Vygotsky (1972) é o resultado de uma série de transformações, em que um processo interpessoal (externo) converte-se num processo intrapessoal (interno).

O conteúdo simbólico inerente na interação possui um significado compartilhado e, ao tornar-se um processo intrapsíquico, este conteúdo sofre uma síntese relacionada com o sentido pessoal que o indivíduo atribui àquele conteúdo. Na Psicoterapia Sócio-Histórica, a ZDP refere-se ao caminho que o indivíduo vai percorrer para desenvolver funções que estão em processo de amadurecimento e que se tornarão funções consolidadas, estabelecidas no seu nível de desenvolvimento real.

Quintino-Aires (2003) entende que a organização do aparelho mental depende de como o Self consegue traduzir mentalmente a sua ligação com a realidade, como classifica e agrupa a forma de se entender como um ser distinto, fonte de intenções, desejos, emoções e necessidades, dentro da rede de trocas interpessoais e através da contingência do outro (psicoterapeuta). A partir da atenção expectante do outro, o EU toma a iniciativa e aguarda a contingência desse outro que transforma a iniciativa em mensagens (Leal, 1999), nascendo a reciprocidade e a alternância – Eu / Tu / Eu –, que se caracteriza como um padrão nuclear da organização da mente.

Rijo (2003) compara o processo psicoterapêutico a uma dança: um, o psicoterapeuta, deixa que o outro, o cliente, tome a iniciativa e depois acompanha os passos do seu par com repetições e ecos, numa dualidade. Rijo chama ainda a atenção para o valor do respeito do tempo do paciente e assinala que o progresso da psicoterapia – os avanços e recuos no intercurso relacional –, depende de como os passos serão conduzidos e da confiança e compreensão que o psicoterapeuta irá possibilitar às expressões das vivências do cliente. O psicoterapeuta coloca os seus valores em suspenso para estar com o cliente de modo aberto para ajudá-lo a vê-lo como ele se vê (Quintino-Aires, 2002).

A Linguagem na Psicoterapia


A linguagem tem um papel essencial na formação da consciência, já que é através dela que o homem transmite as suas representações de uma geração para a outra, pode refletir sobre o mundo que o cria e, ao criá-lo, pode estruturar a sua consciência. Na relação psicoterapêutica o falar corresponde ao agir, a palavra torna-se espaço para o indivíduo se expressar e construir a sua própria consciência. Através da verbalização, os conteúdos individuais podem emergir e ser trabalhados em consciência. A responsividade que Leal (1998) considera essencial para a relação, a experiência de receber a palavra, a postura de escuta do Outro, é condição fundamental para a reciprocidade.

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O psicoterapeuta é aquele que ouve e traduz, desempenhando um papel de testemunha e de contentor da palavra e do símbolo. Exerce o papel de mediador das relações que abrangem interlocutores do passado e do presente, garantindo ao cliente uma movimentação mais fluida nessa rede de relações, acreditando que a este cabe a iniciativa de querer mudar.

O psicoterapeuta deve ter habilidades para se aperceber dos recursos disponíveis do cliente e saber identificar os seus significados e intenções, de forma a promover as suas próprias contingências às iniciativas do cliente. Rocha (2003) destaca que a estrutura psíquica do ser humano é organizada na relação com o outro, tornando-se assim indispensável a existência de alguém que lhe proporcione um diálogo coerente e estável que facilite o processo de socialização e de interiorização da cultura e das normas sociais, e que lhe permita identificar e estabilizar as suas emoções, ganhar autoestima e entender de forma segura todos os seus comportamentos.

O Psicoterapeuta Sócio-Histórico para Quintino-Aires (2001) e Vale (2002) é um interlocutor válido e contingente a um EU em sofrimento. A compreensão empática no ato de acolhimento por parte deste profissional envolve o indivíduo num primeiro contacto relacional, contextualizado de todo o seu sofrimento explícito e implícito, assumindo esse Outro um papel válido na ação de reconhecimento de toda a sua dor desestruturante.


Ref: Dias (s/d). A Psicologia Sócio-Histórica na Clínica: uma conceção atual em psicoterapia.


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