Clínica Social de Condeixa-a-Nova Artigos O Papel da Fala na Regulação do Comportamento – 1, II

O Papel da Fala na Regulação do Comportamento – 1, II



O Papel da Fala na Regulação do Comportamento Normal e Anormal, Cap. 1, II Parte

Neste artigo, iremos analisar o Livro de Alexander Luria The Role of Speech in the Regulation of Normal and Abnormal Behavior (O Papel da Fala na Regulação do Comportamento Normal e Anormal), publicado em 1961.

Primeiro Capítulo – O Papel da Fala na Formação de Processos Mentais

Segunda Parte


Uma característica vital dos complexos sistemas funcionais é que eles permitem que o homem vá além dos limites das suas capacidades físicas e organize formas mais bem definidas de comportamento deliberado cuja descrição fundamental tem desde sempre deixado os psicólogos perplexos.

Quando uma mãe mostra alguma coisa à criança e diz “caneca”, o apontar e o nomear o objeto causam uma modificação crucial na perceção da criança.

A palavra que designa o objeto define as suas propriedades funcionais essenciais e coloca-o numa categoria de objetos com características semelhantes; a palavra tem a complexa tarefa de fazer uma análise e síntese para a criança, e depois instala-se num complexo sistema de ligações que agem na criança e condicionam o seu comportamento.

É óbvio para qualquer observador que a criança não só está atenta ao dedo indicador da mãe, mas muito cedo começa ela também a usar o seu próprio dedo para demarcar qualquer objeto no seu ambiente; ela não apenas compreende as palavras que ouve, mas também começa ela própria a nomear ativamente os objetos. Isto torna-se o fator principal no desenvolvimento mental da criança.

Assim sendo, a criança torna-se capaz de modificar ativamente o ambiente que a influencia; ao fazer uso da fala, a criança altera a força do estímulo que está a agir sobre ela e adapta o seu comportamento a essas mesmas influências.

As experiências partilhadas por Luria no seu livro mostram que falar com a criança pode, de facto, re-modificar a perceção dos estímulos e, desta forma, modificar também a “regra do estímulo mais forte”, fazendo de estímulos fracos mais dominantes.

Em primeiro, foram mostrados a crianças dos três aos cinco anos círculos coloridos em diferentes fundos também coloridos, e foi-lhes dito para que apertassem um balão com a mão direita quando o círculo vermelho aparecesse no fundo cinzento e com a mão esquerda apertassem o balão quando o círculo verde aparecesse sob o fundo amarelo.

Esta instrução simples mostrou que as crianças se focavam no estímulo mais forte: o círculo. Então elas apertavam o balão de acordo com o círculo e não com o fundo: apertavam o balão com a mão direita mesmo que o círculo vermelho aparecesse no fundo amarelo.

A seguir, os círculos foram substituídos por aviões coloridos e os fundos continuaram os mesmos. Desta vez, os cientistas pediam às crianças que apertassem o balão com a mão direita quando o avião vermelho aparecesse no fundo amarelo “porque os aviões podem voar quando o sol está a brilhar e o céu está todo amarelo”, e que apertassem o balão com a mão esquerda quando o avião verde aparecesse no fundo cinzento “porque quando está a chover o avião não pode voar e tem que ser mantido no chão”.

Com estas duas novas instruções, os fundos coloridos ganharam uma nova força e, na maioria dos casos, mesmo as crianças de três e quatro anos reagiam aos fundos em vez de somente às imagens.

Como se pode ver pelas experiências, a força natural de um objeto pode ser facilmente modificada ao influenciar o sujeito através da fala. As imagens mudam radicalmente se usarmos instruções verbais que deem uma propriedade especial ao estímulo mais fraco.

Somente em casos patológicos mais sérios, tal como na deficiência intelectual, o sistema de associações verbais falha ao não influenciar o processo de perceção ou ao não assegurar um rearranjo mais estável da força imediata dos estímulos.


Referência: Luria, A. R. (1961). The Role of Speech in the Regulation of Normal and Abnormal Behavior. Nova Iorque: Liveright Publishing Corporation.

Veja também a Primeira Parte! Esteja atento à Terceira Parte!


Se pretende deixar alguma questão ou partilhar a sua opinião, deixe-nos o seu comentário!

Etiquetas:,

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *