Clínica Social de Condeixa-a-Nova Artigos Psicologia Clínica e o Trabalho com Crianças

Psicologia Clínica e o Trabalho com Crianças

O Básico da Psicologia Clínica

Na prática clínica, ao trabalhar com crianças, temos que nos familiarizar com o desenvolvimento infantil – cognitivo, motor, emocional, social. Temos também que nos familiarizar com os melhores modelos e técnicas para trabalhar com crianças. Na Psicologia Clínica, temos vários modelos, os principais são a Terapia Cognitivo-Comportamental, a Psicanálise, a Terapia Familiar Sistémica, e uma teoria relativamente recente na prática: a Psicologia Sócio-Histórica.

Experiencia Pratica

A base desta teoria é que a nossa Personalidade, o nosso Self, é transformado através das nossas relações com Outros significativos. Mesmo que alguns aspetos da Personalidade sejam passados através do ADN, até esses podem ser transformados nos anos iniciais do desenvolvimento.

Isto está cientificamente provado. O Professor Allan Schore, da Universidade da Califórnia, Los Angeles (UCLA) afirmou que nos primeiros dois anos, os bebés confiam no forte laço que estabelecem com a sua mãe para um desenvolvimento saudável do cérebro. “O desenvolvimento dos circuitos cerebrais depende disto”, diz, acrescentando que, por 80% das células do cérebro se desenvolver nos dois primeiros anos de vida, problemas nesse desenvolvimento podem afetar a pessoa para o resto da vida. fonte

[fonte]

​As pessoas precisam de relações saudáveis e significativas para terem um desenvolvimento saudável em qualquer aspeto, pois essas relações são responsáveis por formar o nosso cérebro original. E como qualquer comportamento ou pensamento que tenhamos, qualquer decisão que tomemos, qualquer passo que dermos é comandado pelo nosso cérebro, relações pobres significam uma mente e um corpo deficitários.


Lev Vygotsky, psicólogo soviético, disseminou esta ideia de que a nossa Cultura é responsável pelo nosso Self. Estudou várias comunidades durante vários anos e chegou a várias conclusões, uma delas talvez a mais importante: as nossas Funções Nervosas Superiores – Memória, Atenção, Linguagem, Pensamento, Cálculo, Abstração, têm uma Origem Relacional.

Lev Vygotsky ​Alexander Luria ​Aleksei Leontiev

[clique nas imagens para as fontes]

Alexander Luria, um neuropsicólogo russo, seguiu as ideias de Vygotsky, aprofundou o seu estudo nas Funções Nervosas Superiores e nos fundamentos básicos da Neuropsicologia. Ao mesmo tempo, Aleksei Leontiev, um psicólogo do desenvolvimento russo, pegou em algumas das ideias de Vygotsky e acrescentou que apenas nos podemos apoderar da nossa Cultura e das suas ferramentas se Agirmos​ sobre ela – se nós próprios fizermos uso dessas ferramentas na nossa ação prática, estamos a criar sentido sobre essa mesma Cultura e assim a sentimos como pertencendo a ela.

É o que o bebé humano faz: depois de perceber que consegue tocar em coisas e movê-las, depois de compreender que tem poder sobre essas coisas, irá querer imitar os seus pais ao usar esses objetos com um propósito – ao agarrar e tentar comer com uma colher, por exemplo, o bebé está a agir sobre a sua Cultura.


Na maior parte dos casos, as crianças vêm à terapia por dois aspetos principais:

  • Questões Comportamentais (Hiperatividade, Problemas de Oposição e Desafio, Autismo,…);
  • Dificuldades Escolares (Dislexia, Disgrafia, Atrasos na Aprendizagem,…).

Mas o centro de todas as problemáticas está sempre na falta de atenção significativa da parte dos primeiros cuidadores. Em algum ponto do desenvolvimento, pais e/ou outros cuidadores deixaram de prestar a devida atenção, deixaram de estar sensíveis às iniciativas do bebé, então aquele ser começou a emitir formas confusas de expressar que algo estava diferente.

Family Relations

Os pais têm uma certa dificuldade em aceitar mas depois conseguem perceber o que se quer dizer, relacionam a falha na atenção com as vidas rotineiras que levam: muita pressão sobre os pais e sobre as crianças, muita pressão na sociedade no seu todo.

É neste sentido que entra o Psicólogo: irá re-transformar a personalidade daquela criança. Irá recriar, num setting controlado, as relações iniciais da criança – com atenção, afeto e limites consistentes, necessários para a sua vida saudável.

Ludoterapia e Habilitação Neuropsicológica

Nas crianças que chegam com problemáticas comportamentais, é feita Ludoterapia. O Brincar é o principal meio de comunicação da criança. Permite que a criança se expresse, expresse os seus sentimentos e emoções, os seus pensamentos, o seu comportamento. Se encontrarem um Outro atento, estarão cada vez mais capazes de se mostrar. Depois depende do Psicólogo entender quais são as iniciativas importantes que a criança está a tentar mostrar, e depois ser contingente – mostrar um comportamento semelhante – em resposta a essa iniciativa.

Autistic ChildNos casos de Autismo, a criança desistiu de emitir iniciativas pois os pais não conseguiram entender esses comportamentos – o simples sorriso, o choro, o mandar objetos ao chão, são tudo iniciativas.

Estão a chamar alguém que lhes responda com as formas mais primitivas que têm. Precisam dessa comunicação básica para se sentirem seguros e protegidos, para sentirem que são parte de um grupo de humanos cuidadosos.

E precisam dessa comunicação para organizarem a sua mente caótica cheia de estímulos. Se isso não acontecer, se ninguém responder ou não responder no tempo adequado, se ninguém for contingente às suas iniciativas, a criança começa a fechar-se no seu próprio mundo caótico, começa a desistir de emitir iniciativas.

O trabalho do Psicólogo aqui terá que ser bastante atento: as crianças autistas lançam poucas iniciativas ou iniciativas impercetíveis como chamadas para a ação. Tudo o que acontece em gabinete terá que ser espelhado pelo técnico e entendido como iniciativa. Com o tempo, começamos a entrar no mundo próprio do autista e este começa a percecionar que alguém está a tentar comunicar com ele. Com o tempo, começam ambos a partilhar um meio de comunicação que só os dois conseguem entender e, só depois de muito mais tempo, irá o autista entender que podemos partilhar outro tipo de comunicação com o meio exterior – uma ferramenta que será entendida pelos seus pais, família, colegas, professores… Só neste momento irá a criança sentir-se como parte daquela comunidade, com uma mente mais organizada e com um mundo próprio menos caótico.

​Em casos de Hiperatividade, as iniciativas vêm quase todas ao mesmo tempo porque a dificuldade principal é que a criança não sabe a que iniciativas irão os outros estar atentos, então está continuamente a lançar iniciativas. Estas iniciativas são sob a forma de atividade extrema: dificuldade em estar sentado por mais de 2 minutos, dificuldade em permanecer na mesma tarefa por algum tempo, constantemente a mudar de atividade, constantemente a falar sobre os mais variados assuntos… O Psicólogo aqui terá que ser capaz de se manter focado nas iniciativas principais para a criança.

​No início será uma tarefa árdua e cansativa, mas com o decorrer das sessões, o técnico será capaz de se focar naquelas iniciativas em que a criança começa a demorar um pouco mais de tempo. E depois a criança começa a perceber que o Psicólogo está a prestar atenção a essas ações, então entende que há alguém a seguir a sua comunicação. Ambos irão continuar com este tipo de comunicação até que a criança seja capaz de controlar o seu comportamento de uma forma mais coerente.

Em casos de Desafio e Oposição, as iniciativas são um pouco mais elaboradas porque normalmente já fazem parte do processo de desenvolvimento do adolescente. Aqui, as iniciativas serão falta de respeito para com os outros ou com as coisas dos outros, arrogância, zanga, raiva, que podem ser demonstradas de forma mais severa nos casos de agressão a colegas ou a professores. Estas crianças/adolescentes estão a tentar dizer que, apesar de estarem mais crescidos, ainda precisam de limites e afeto. Aqui eles já sabem que tipo de iniciativas os pais prestam atenção – às más. Então irão repetir essas mesmas ações vezes sem conta até que os pais lhes imponham o limite rígido, mas afetivo, que estão a pedir.

​Isto é o que também acontece no gabinete do Psicólogo: contêm-se essas ações, todos esses sentimentos fortes, e dá-se os limites necessários para que sintam que é seguro crescer porque irá sempre haver alguém significativo ali presente.

Quando as crianças vêm à terapia com dificuldades escolares, normalmente são enviadas pelos professores. Na maior parte dos casos, após uma avaliação psicológica e neuropsicológica, inicia-se Habilitação Neuropsicológica (outros casos, após a avaliação, revelam-se dificuldades emocionais que estarão a impedir a criança de aprender, então inicia-se Ludoterapia). Para tal, é necessário prestar muita atenção aos resultados da avaliação para que se possa trabalhar mais especificamente com a função substruturada.

​Se for uma dificuldade na Atenção Voluntária, treina-se essa função com exercícios específicos juntamente com as regras básicas da habilitação neuropsicológica: sentados direitos com ambos os pés no chão e os braços em cima da mesa, toda a leitura terá que ser feita com o indicador da mão esquerda a indicar a linha e o indicador da mão direita a indicar a leitura, e nenhum erro deve ser aceite, o que quer dizer que só se avança se a tarefa anterior for bem conseguida.

Somente seguindo estas regras, seremos capazes de afirmar que as tarefas estão a re-formar o cérebro da criança. Se for uma questão de dificuldades de Memória, trabalha-se diretamente a Memória juntamente com exercícios para manter a Atenção. Se for uma dificuldade de Leitura e Interpretação, trabalham-se textos com exercícios de interpretação, sempre com exercícios de Atenção. E assim para qualquer função mental.


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